Foi assim na semana em que o vizinho começou uma obra e na noite em que o Rafael chegou bem mais tarde do que o previsto: nenhum miado, nenhuma reclamação, só o Freud sumido. Levei tempo para entender que se esconder é o jeito mais educado de um gato dizer que algo está errado.

E eu também deixo passar sinal em casa: esse mesmo Freud escondeu de mim uma dor de dente por três dias, como contei no guia de sinais de dor em gatos e cachorros. Não é só comigo. No comportamento do gato e do cachorro, os tutores reconhecem o sinal escandaloso e perdem o discreto, que costuma vir antes.

Ninguém precisa decifrar o bicho gesto a gesto. O que muda a vida dele é perceber quando algo mudou e saber para onde levar. Este guia junta as duas coisas: como ler o gato e o cachorro, as mudanças que a diretriz veterinária manda avaliar e onde cada problema é tratado aqui no blog.

A resposta curta: o comportamento do gato e do cachorro é a linguagem com que eles mostram conforto, medo e dor, e o que se lê é a mudança, não o gesto isolado. Mudança repentina vai primeiro ao veterinário: numa análise de 100 casos de cães encaminhados a especialistas, cerca de um terço envolvia dor.

  • O comportamento do gato e do cachorro é sinal de saúde: a diretriz de comportamento da AAHA, de 2015, diz que problema de comportamento afeta mais cães e gatos do que qualquer outra condição.
  • Tutores reconhecem tremor e choro como sinal de estresse; bocejo e lamber o focinho no cão, e mudanças no arranhar ou no esconder no gato, estão entre os sinais menos lembrados, e nenhum deles diagnostica sozinho.
  • Mudança repentina vai ao veterinário clínico primeiro, e exame inicial normal não encerra a investigação: dor, doença e comportamento podem existir juntos.
  • A diretriz da AAHA lista 8 comportamentos que, se aparecerem entre 1 e 3 anos no cão (até 4 no gato), pedem avaliação veterinária, e eles estão na tabela deste guia.
  • Punição piora: o caminho é ambiente, recompensa do comportamento certo e, nos casos graves, um veterinário que atende comportamento.

O Que o Comportamento do Gato e do Cachorro Diz Antes de Qualquer Exame?

Comportamento do gato e do cachorro é o conjunto de posturas, sons e hábitos com que eles reagem ao ambiente e ao próprio corpo. Mudança nesse padrão costuma ser o primeiro sinal de estresse, medo ou dor, muitas vezes antes de qualquer sintoma que apareça num exame.

Não é detalhe de quem gosta de bicho. A diretriz de comportamento da AAHA, publicada em 2015 pela associação americana de hospitais veterinários, afirma que problemas de comportamento afetam mais cães e gatos do que qualquer outra condição, e que muitas vezes terminam em eutanásia, abandono ou sofrimento crônico.

A mesma diretriz diz que esses quadros são progressivos e que intervir cedo é essencial. Na prática, isso muda a pergunta que vale a pena fazer em casa. Em vez de “o que esse gesto quer dizer?”, a pergunta útil é outra: “isso é novo?”.

comportamento do gato: mosaico com gato escondido debaixo da cama, cão bocejando, gato de olhos semicerrados e cão de corpo solto
Esconder-se e bocejar fora de hora, de um lado; olhos semicerrados e corpo solto, do outro.

Para responder, você precisa saber como é o normal do seu bicho: onde dorme, quanto come, como recebe visita, como reage ao barulho do prédio. É a mesma lógica da consulta de rotina que defendo no guia de saúde preventiva pet: só dá para ver a mudança quando se conhece o ponto de partida.

Comportamento do Gato: Quais Sinais os Tutores Mais Deixam Passar?

O comportamento do gato é mais silencioso que o do cão, e por isso engana mais. O gato raramente grita o desconforto. Ele se retira, para de fazer o que fazia ou faz no lugar errado, como o Freud debaixo da cama.

Orelhas, Pupila, Esconderijo e Piscar Lento

Na lista de sinais de ansiedade da diretriz da AAHA, os que mais aparecem no gato em casa são esconder-se ou tentar fugir, ficar imóvel, as orelhas baixas, a pupila dilatada, o lamber excessivo do pelo e a mudança forte no apetite, que costuma cair no estresse agudo e subir no crônico.

Nenhum deles diagnostica sozinho. A pupila dilata com pouca luz, na brincadeira, no medo e na dor; o pelo lambido demais pode ser coceira. O que pesa é o conjunto, num gato que antes não fazia aquilo.

Entre os sinais ligados a uma interação positiva, o piscar lento já foi investigado experimentalmente. Num estudo publicado na Scientific Reports, os gatos semicerravam mais os olhos quando o tutor piscava devagar para eles, e se aproximavam mais de um desconhecido depois de uma troca de piscadas lentas do que diante de um rosto neutro.

Dá para fazer em casa: olhe para o gato, feche os olhos devagar até a metade e espere. Se ele responder estreitando os olhos, isso pode indicar uma interação positiva, embora o gesto sozinho não diga exatamente o que ele sente.

Arranhar, Paralisar e Sinais Urinários: o Estresse que Não Parece Estresse

Um estudo com 194 tutores de gatos na Itália mostrou onde mora o ponto cego na leitura do comportamento do gato. Arranhar móveis, ficar paralisado, pupila dilatada e cistite recorrente foram os sinais de estresse menos reconhecidos. Só o miado excessivo, as orelhas para trás e o xixi fora da caixa foram lembrados por mais de dois terços dos tutores.

Isso não quer dizer que gato que arranha está estressado. A diretriz felina trata arranhar como comportamento normal de marcação. O sinal está na mudança: arranhar muito mais, em lugar novo, junto de outros sinais. O lugar certo se resolve com o arranhador para gato adequado, não com bronca.

comportamento do gato: arranhar móveis, ficar paralisado, pupila dilatada e cistite recorrente foram os sinais de estresse menos reconhecidos por 194 tutores
Nenhum dos quatro diagnostica sozinho: o que pesa é a mudança, junto de outros sinais.

Com os sinais urinários, o cuidado é maior. Infecção, cálculo, inflamação e obstrução produzem sinais parecidos, por isso xixi fora da caixa ou idas repetidas à caixa pedem avaliação veterinária. Pelo Centro de Saúde Felina de Cornell, a cistite idiopática só se confirma quando os exames descartam as outras doenças, e o estresse pode pesar nas crises.

Gato que faz força na caixa e urina pouco ou nada precisa de atendimento imediato. A mesma fonte trata a obstrução da uretra como emergência médica verdadeira e lembra que o macho, castrado ou não, corre mais risco, porque a uretra dele é mais longa e mais estreita.

Como Ler o Comportamento de Cachorro? Da Cauda Solta ao Bocejo Fora de Hora

No cão, a leitura começa pelo desconforto. No último check-up de rotina do Bertão, a tutora do lado comentou que ele estava cansado. Não estava. Lamber o focinho sem ter comido nada e bocejar de cinco em cinco minutos, colado na minha perna, é o jeito dele de pedir para ir embora.

Em casa ele é um livro aberto: corpo solto, boca entreaberta, cauda abanando larga, o peso todo esparramado no chão da cozinha. É no outro extremo que a leitura fica difícil, porque o medo nem sempre late.

O Que Muda no Corpo do Cão com Medo ou Estresse

O Manual Veterinário MSD descreve os sinais de medo e ansiedade no cão como postura baixa, pelo arrepiado, vocalização e os chamados comportamentos de deslocamento, como bocejar e lamber os lábios.

Comportamento de deslocamento é um gesto normal feito fora de hora: o bocejo sem sono, a lambida sem comida. É o cão aliviando a tensão com o que tem à mão. A lista de sinais de ansiedade da AAHA, que vale para cães e gatos, traz vários deles.

No cão, os que mais aparecem em casa são ofegar sem calor nem exercício, tremer, virar a cabeça ou o corpo para longe, abaixar a cabeça, deixar as orelhas caídas, esconder a cauda, levantar uma pata, andar de um lado para o outro e grudar em quem ele confia.

comportamento do gato e do cachorro: no cão, os sinais discretos como bocejo e lamber o focinho vêm antes do medo, do rosnado e da mordida
Punir o rosnado apaga um degrau da escada, e a mordida chega sem aviso.

Um sinal isolado diz pouco. O bocejo do Bertão, sozinho, podia ser sono. Junto da lambida no focinho e do corpo colado em mim, no lugar que ele associa à agulha da vacina, a leitura fica fácil.

Os Sinais que os Tutores Menos Lembram

Num estudo italiano com 1.190 tutores de cães, os sinais de estresse mais citados foram tremer e choramingar, seguidos de agressividade, latido excessivo e ofego. Olhar para outro lado, virar a cabeça, bocejar e lamber o focinho apareceram bem menos.

A diretriz da AAHA registra o mesmo: os tutores reconhecem com facilidade tremor e choro agudo como sinal de aflição, mas podem não reconhecer os sinais menos evidentes. O problema é que os discretos costumam vir primeiro. Quando o cão chega ao tremor, já deu vários avisos.

No filhote, a leitura tem regras próprias, porque mordida e choro fazem parte da fase e não querem dizer o mesmo que no adulto. O que funciona com a mordida está no guia de como fazer o filhote parar de morder.

Resposta direta

Quais são 3 sinais de que seu cão está pedindo ajuda?

Lamber o focinho fora da hora de comer, bocejar sem sono e virar a cabeça ou desviar o olhar. O Manual Veterinário MSD descreve bocejo e lambida como gestos de medo e ansiedade, e num estudo com 1.190 tutores eles estiveram entre os sinais menos lembrados. Se aparecerem juntos, tire o cão da situação.

Por Que o Ambiente Muda o Comportamento? Os 5 Pilares do Gato e o Que Vale para o Cão

Boa parte do estresse que aparece no comportamento nasce na casa, e não no bicho. Para o gato existe uma régua clara, escrita por quem cuida de gatos para outros veterinários.

A diretriz de necessidades ambientais da FelineVMA (antiga AAFP) e da ISFM, de 2013, organiza o ambiente do gato em cinco pilares, afirma que atender a essas necessidades é essencial, não opcional, para o bem-estar dele, e diz que seguir os pilares ajuda a reduzir o estresse, os problemas ligados a ele e o comportamento indesejado.

Pilar da diretrizO que significa na prática
1. Um lugar seguroum canto reservado, de preferência alto, onde ele se recolhe quando quer
2. Recursos múltiplos e separadoscomida, água, caixa de areia, área de arranhar, de brincar e de descanso em pontos diferentes da casa
3. Chance de brincar e caçarperseguir, pegar e “matar” uma presa de brinquedo, de preferência com você
4. Contato humano positivo e previsívelinteração gentil, frequente e no ritmo dele, sem forçar colo
5. Respeito ao olfatoevitar produto de limpeza, detergente e areia perfumada que apaguem o cheiro que ele reconhece como casa

Os objetos que atendem cada pilar estão no guia de acessórios para cachorro e gato. Aqui o que interessa é a leitura: gato que arranha o sofá, briga com o irmão ou faz xixi fora da caixa pode estar avisando que um desses pilares falhou, depois de descartada a causa médica.

O pilar da caça é o mais esquecido, porque gato de casa parece satisfeito dormindo. O que prende a atenção dele de verdade está no guia de brinquedos para gato.

Para o cão não existe uma régua em pilares, mas a AAHA define enriquecimento ambiental como acrescentar ao ambiente algo que reduza o comportamento indesejado e aumente o desejado. O exemplo da diretriz é o do cão que anda de um lado para o outro quando fica sozinho e passa a trabalhar num brinquedo com comida.

E ela mesma avisa: muitos cães com problema de comportamento estão aflitos demais para que só isso resolva. Brinquedo novo não substitui avaliação quando o quadro já está instalado. Para quem acabou de adotar, os primeiros meses pedem uma régua própria, que montei no guia de adoção de cachorro ou gato.

Quando a Mudança de Comportamento É Dor ou Doença?

Esta é a parte que mais me importa no guia inteiro, porque é onde o tutor bem-intencionado erra: ele trata como comportamento o que é dor.

O Manual Veterinário MSD é direto: é essencial descartar causas médicas antes de tratar um problema de comportamento, e qualquer doença que cause dor ou desconforto, de coceira a náusea, pode aumentar a irritabilidade e a agressão no cão.

Numa análise descritiva da casuística de especialistas em comportamento de vários países, os autores revisaram 100 casos recentes de cães encaminhados a eles e estimaram, por baixo, que cerca de um terço envolvia algum quadro de dor. Entre os serviços, a proporção foi de cerca de 1 em 4 a mais de 8 em 10 casos.

Como são cães que já tinham chegado a um especialista, esses números não valem para todos os cães. Valem pelo recado: quando o problema de comportamento é sério o bastante para chegar lá, a dor aparece com frequência.

No Brasil, um estudo retrospectivo de conclusão de curso da UFRGS, com 234 cães atendidos por veterinárias de comportamento em Porto Alegre em 2023, identificou dor crônica pela ficha de atendimento em 47% deles. É uma amostra clínica selecionada, não um retrato de todos os cães, e aponta na mesma direção.

No gato, a regra aparece com todas as letras no caso da caixa de areia: antes de qualquer tratamento comportamental, a diretriz da AAHA manda tratar a doença que possa estar por trás. Os sinais que um gato doente esconde, e o prazo para cada um, estão no guia do gato doente.

A AAHA chega a dizer que mudança de comportamento pode pôr a vida do animal em risco. Por isso a regra que eu uso é: mudança repentina vai ao veterinário clínico antes de virar treino.

E um exame inicial normal não encerra a conversa. Se a primeira avaliação não achar causa médica, o veterinário pode pedir investigação complementar ou indicar avaliação de comportamento. Dor, doença e alteração de comportamento podem existir juntas, e a falta de achado no primeiro exame não torna o quadro automaticamente comportamental.

comportamento do gato e do cachorro: mudança repentina vai ao veterinário clínico primeiro, e gato que faz força e não urina vai ao atendimento imediato
Exame inicial normal não fecha a conversa: dor, doença e comportamento podem existir juntos.

Quais Mudanças de Comportamento Pedem Veterinário? As 8 da Diretriz para o Cão e o Gato Jovens

A AAHA, na diretriz de 2015, lista 8 comportamentos que, quando aparecem durante a maturidade social (entre 1 e 3 anos no cão e até 4 no gato), pedem avaliação veterinária.

Fora dessa fase a diretriz não dá lista, mas diz que mudança de comportamento pode pôr a vida do animal em risco e manda tratar a causa médica antes do comportamental.

A diretriz olha para essa fase porque é nela que o problema costuma se instalar: segundo o texto, a maioria dos cães e gatos entregues a abrigos, sacrificados por problema de comportamento ou abandonados tem entre 1 e 3 anos e está no meio da maturidade social.

Comportamento da listaNo cão, costuma aparecer comoNo gato, costuma aparecer como
Medo ou retraimento diante de pessoas ou outros animaisse esconde atrás de você, evita visita e outros cãessome quando chega visita, evita o outro gato
Agressão a pessoas ou outros animaisrosna, mostra os dentes, mordesibila, ataca o tutor ou o outro gato
Comportamento repetitivogira em círculos, lambe a pata sem pararse lambe até falhar o pelo, suga tecido
Mudança na eliminaçãoxixi ou cocô dentro de casa, já treinadoxixi ou cocô fora da caixa
Medo novo de ambiente ou estímulopânico com trovão, carro, passeio ou lugar novofoge de barulho ou de objeto novo
Sofrimento quando fica sozinhochora, late ou destrói perto da portaaparece menos, e a regra é a mesma
Reatividade maior em qualquer situaçãoreage a coisas que antes ignoravase assusta e ataca com mais facilidade
Mudança grande de atividade ou de descansodorme muito mais, ou não sossega nem dormindoidem

Lista: AAHA 2015, tabela 5. Exemplos de como aparece em casa: leitura minha.

Para as oito, o meu primeiro passo é o mesmo: consulta com o veterinário clínico, levando anotado quando começou e em que situação aparece. Vídeo de celular ajuda muito, porque o bicho raramente repete o comportamento no consultório.

Fora dessa fase, a régua passa a ser a mudança em relação ao normal do seu bicho. No cão idoso a conversa muda de novo, porque parte das alterações vem da disfunção cognitiva, que tem guia próprio.

Resposta direta

Quando a mudança de comportamento pede veterinário?

Quando ela é nova e não passa: medo ou retraimento, agressão, comportamento repetitivo, xixi ou cocô fora do lugar, medo novo de barulho ou de passeio, sofrimento quando fica sozinho, reatividade maior e mudança grande de atividade. A AAHA lista esses oito para o cão e o gato jovens, e manda tratar a causa médica antes de qualquer treino.

Quais São os Problemas de Comportamento Mais Comuns, e Onde Cada Um É Tratado?

Os motivos que levam um tutor a procurar ajuda se repetem. A diretriz da AAHA de 2015 resume as alterações de comportamento de cães e gatos em ansiedade, estresse, depressão, agressão e eliminação fora do lugar.

No trabalho da UFRGS, os motivos mais comuns de consulta entre os 234 cães foram agressividade, presente em 68% dos casos, medos e fobias, em 51%, e problemas de separação, em 33%. Um mesmo cão podia ter mais de um.

A tabela abaixo é o mapa desses problemas aqui no blog. A regra de entrada vale para todos: se começou de repente, consulta antes de qualquer tentativa de resolver em casa.

ProblemaEspéciePrimeiro passo
Arranhar móveisgatooferecer o lugar certo, sem bronca
Xixi fora da caixagatodescartar causa médica; fazer força sem urinar é emergência
Mordida que parece vir do nadagatoobservar o contexto e descartar dor
Cão e gato na mesma casaos doisapresentação gradual, com rota de fuga para o gato
Latido excessivo, inclusive o que parece sem motivocãoprocurar o gatilho e descartar dor
Ansiedade de separaçãocãonão punir o que foi destruído na ausência
Agressão a pessoas ou a outros cãescãoconsulta antes de qualquer protocolo
Pular nas pessoascãoparar de recompensar o pulo (atenção ou o que está na sua mão)
Medo de trovão e de fogoscãoconsulta antes da época de fogos
Choro do filhote nas primeiras noitescãorotina da primeira semana

O choro do filhote recém-chegado tem passo a passo próprio, noite por noite, no guia de filhote chorando à noite.

Punir Funciona? O Que a Diretriz Diz e Quem Procurar

Não. E a razão não é só de bem-estar, é de segurança.

A diretriz da AAHA lista coleira de enforcar ou de pinos, coleira de choque, deitar o cão de barriga para cima à força, privar de comida e bater entre as técnicas aversivas, e diz que nenhuma delas deve ser usada para ensinar ou mudar comportamento.

O motivo que mais me convence está na mesma página: essas técnicas fazem o cão com medo ou agressivo esconder os avisos de que vai atacar, e isso torna qualquer cão agressivo mais perigoso. O rosnado que você corrige hoje vira a mordida sem aviso de amanhã.

Contei nas lições dos meus anos de consultório que o que parece birra quase sempre é sintoma. Bronca trata o sintoma como desaforo e deixa a causa onde estava.

Quem procurar, na ordem: o veterinário clínico, para investigar dor e doença; um veterinário que atende comportamento, quando há agressão, autolesão, medo intenso ou vários problemas ao mesmo tempo, que são os casos que a AAHA manda encaminhar; e um adestrador qualificado, trabalhando junto com o veterinário.

Para escolher o adestrador, a própria AAHA dá o filtro: se ele dá tranco na guia, explica o comportamento em termos de “dominância” ou joga coisas no cão, troque de profissional.

A comparação entre reforço positivo e método tradicional, com os estudos de cada lado, é assunto de um guia próprio. Aqui basta a posição da diretriz: técnicas que identificam e recompensam o comportamento desejado.

Minha Recomendação Direta sobre Comportamento do Gato e do Cachorro

Minha recomendação

Leia o comportamento do gato e do cachorro como um termômetro, não como personalidade. O gesto isolado diz pouco; a mudança diz muito. Na clínica, o que me faz pedir exame antes de falar em treino é justamente isso: um comportamento novo, que apareceu de repente, num bicho que até ontem era outro.

A recomendação, por situação:

  • Se a mudança é repentina, de qualquer tipo: veterinário clínico primeiro, com anotação de quando começou e em que situação aparece, e um vídeo se der. Se o primeiro exame vier normal, siga a investigação que ele indicar.
  • Se é um padrão antigo ou persistente: leve à consulta de rotina e, em paralelo, revise o ambiente (os cinco pilares, no gato) e recompense o comportamento certo, sem punição. Dor crônica nem sempre dá sinal evidente.
  • Se há agressão, autolesão ou medo intenso: um veterinário que atende comportamento, junto com o clínico.
  • Se o gato faz força na caixa e urina pouco ou nada: atendimento imediato.
  • Em nenhum caso: punição, coleira de choque ou “mostrar quem manda”.

O Freud continua sumindo debaixo da cama quando a casa muda, e o Bertão continua odiando a sala de espera. A diferença é que hoje eu sei ler os dois, e sei quando a leitura pede só paciência e quando pede consulta.

Perguntas Frequentes sobre Comportamento do Gato e do Cachorro

Quais são os sinais de comportamento canino?

Os sinais de comportamento canino se leem no corpo inteiro: postura, orelhas, cauda, boca e olhar. Corpo solto e boca entreaberta costumam indicar conforto. Postura baixa, cauda escondida, orelhas para trás, pelo arrepiado, bocejo e lambida no focinho fora de hora são sinais de medo ou estresse descritos pelo Manual Veterinário MSD e pela AAHA. Leia o conjunto e compare com o normal do seu cão, nunca um gesto sozinho.

É verdade que o cachorro entende o que a gente fala?

Em parte, mas isso não quer dizer que o cão compreenda frases como uma pessoa. Num estudo de ressonância publicado na revista Science em 2016, os cães tiveram respostas cerebrais diferentes para palavras conhecidas e para a entonação, e as áreas ligadas à recompensa responderam mais quando palavra e tom combinavam como elogio. Na prática, palavras curtas, conhecidas e usadas sempre do mesmo jeito dão sinais mais claros ao cão.

Qual a fase mais difícil do cachorro?

Para a diretriz da AAHA, a fase crítica é a maturidade social, entre 1 e 3 anos de idade. É quando o cão forma os primeiros padrões próprios de comportamento e quando os problemas que vinham se formando pioram. A maioria dos cães entregues a abrigos ou abandonados por comportamento está nessa faixa. Por isso a diretriz recomenda uma avaliação de comportamento por volta de 1 ano, e não só a vacina.

O que fazer quando o cachorro rosna?

Pare o que está fazendo e dê espaço ao cão, sem bronca. O rosnado é um aviso, e a diretriz da AAHA alerta que técnicas punitivas fazem o cão esconder os sinais de que vai atacar, o que o torna mais perigoso. Depois, anote a situação: quem estava perto, o que você fazia, se ele estava sendo tocado em alguma parte do corpo. Rosnado novo, sobretudo ao toque, pede consulta para investigar dor.

Os gatos amam seus donos?

A ciência não mede amor, mas mede vínculo. Num estudo da Universidade do Estado do Oregon publicado em 2019, 64,3% dos filhotes de gato e 65,8% dos 38 gatos adultos avaliados mostraram apego seguro ao tutor, proporções semelhantes às relatadas em estudos anteriores com crianças e cães. Gato que procura você depois de um susto e volta a explorar está usando você como base segura.

Como fazer o gato gostar de mim?

Deixe que ele decida e não force o contato, como recomenda a diretriz da FelineVMA, antiga AAFP, e da ISFM: abaixe-se ao nível do gato, evite olhar fixo, ofereça a mão para ele cheirar e espere que ele se aproxime. Se ele estiver relaxado, faça carinho na cabeça e nas bochechas, e pare quando ele se afastar. Contato frequente, curto e no ritmo dele constrói mais vínculo do que colo à força.

Como saber se o gato está estressado?

Procure mudança no comportamento do gato, não drama. Esconder-se mais, ficar imóvel, orelhas baixas, pupila dilatada, lamber o pelo além do normal e mudança no apetite estão na lista de sinais de ansiedade da AAHA. Num estudo com 194 tutores, arranhar móveis e cistite recorrente estiveram entre os sinais menos reconhecidos. Nenhum desses sinais diagnostica sozinho: se algum apareceu de repente, a primeira consulta é para investigar dor ou doença.

Quando procurar um veterinário comportamentalista?

Depois do veterinário clínico, quando a primeira investigação de dor e doença não explicou o problema. A diretriz da AAHA indica o encaminhamento a quem atende comportamento nos casos de autolesão, agressão, fobias profundas, vários problemas ao mesmo tempo e quando o tratamento comum não funcionou. Leve anotado quando começou, em que situações aparece e o que você já tentou, com vídeo se der. Isso encurta a consulta.

Fontes e Referências

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Foto de perfil da Dra. Camila Torres, veterinária e autora do Tutor Inteligente Pet
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Veterinária e tutora do Bertão (labrador), Freud e Jung (gatos). Formação UNESP Botucatu, especialização FMVZ/USP. Escreve sobre o que ela mesma precisou aprender ao cuidar dos próprios pets.

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