Achei o carrapato atrás da orelha do Bertão num domingo à noite, na revisão de pelo que virou rotina depois do passeio na praça. Um só, pequeno, já grudado, com o antiparasitário dele em dia. Tirei com pinça, guardei num potinho e fiquei olhando para aquilo com a pergunta que todo tutor faz nessa hora: e agora, eu espero ou eu levo? A doença do carrapato não começa no carrapato. Ela começa nessa dúvida, e é ela que atrasa a decisão.
Não é doença rara, e o número que me fez levar isso a sério é brasileiro. Num inquérito domiciliar em Cuiabá, 42,5% dos cães testados tinham anticorpos contra a Ehrlichia canis, 108 de 254 animais, segundo a Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária. Anticorpo é marca de exposição, não de doença ativa, e a maioria daqueles cães estava sem sintoma. Mas o número mostra a circulação do agente numa cidade brasileira, e explica por que a doença do carrapato aparece tanto em consultório.
A resposta curta é: ela tem cura, e o que decide o desfecho não é o remédio, é a fase em que o tratamento começa. Cão que teve carrapato e ficou apático ou febril precisa de avaliação em dias, não em semanas; com gengiva pálida ou sangramento, é hoje.
- A doença do carrapato tem cura, e o prognóstico depende da fase: na aguda a melhora clínica costuma começar em 24 a 48 horas, o que não é o mesmo que a infecção estar resolvida.
- A evolução não segue cronômetro: a fase aguda costuma durar algumas semanas e a seguinte pode ser silenciosa por tempo variável, com o cão parecendo recuperado enquanto a infecção persiste.
- O sinal mais acessível em casa é a mucosa pálida. Levante o lábio do seu cão e olhe a gengiva: leva cinco segundos. Ela serve para acender o alerta, nunca para descartar a doença.
- Nem todo cão infectado evolui para a forma crônica, mas na forma crônica severa o prognóstico é grave. É por isso que tratar cedo muda o desfecho.
- Não existe versão caseira disso. O tratamento é antibiótico de prescrição, e dose ou duração insuficientes podem comprometer a resposta.
O Que É a Doença do Carrapato em Cachorro?
Doença do carrapato é o nome popular de um grupo de infecções transmitidas pela picada de carrapatos infectados, e não de uma doença só. Entre as mais conhecidas em cães estão a erliquiose, a babesiose e a anaplasmose. Cada uma tem um agente diferente, um curso diferente e, no caso da babesiose, um tratamento diferente. A erliquiose e a anaplasmose têm diretriz própria para veterinários, publicada na Parasites & Vectors, e é dela que vem quase tudo o que este guia afirma sobre o curso da doença.
Guarde isto, porque é a chave para ler o resto: este guia trata principalmente da erliquiose, que é a mais comum, e diz onde as outras se separam dela.
Quem chega dizendo “meu cachorro está com doença do carrapato” costuma estar falando de erliquiose. Ela é causada pela Ehrlichia canis, bactéria que se instala dentro das células de defesa do cão, e é transmitida pelo carrapato-marrom-do-cão, o Rhipicephalus sanguineus. É um carrapato urbano: vive em fresta de parede, canil, garagem e área de serviço, e não depende de mato. Foi por isso que o Bertão, que mora em apartamento em São Paulo e só encontra grama em praça, pôde trazer um.
O que este guia decide é o que se faz em casa: como reconhecer, em que fase provavelmente se está e qual o prazo para agir. O que o exame de sangue responde e o que fazer com o cão em recuperação têm profundidade própria e texto próprio. Vale ver também como isso se encaixa na saúde preventiva do seu cão.
Quais São os Sintomas da Doença do Carrapato?
O problema real aqui não é médico, é de percepção. Os primeiros sinais são inespecíficos: apatia, febre, falta de apetite, o cão mais quieto do que o normal. É o quadro que um tutor atribui a calor ou a cansaço do passeio. A diferença entre “ele está meio quieto hoje” e “ele está quieto há três dias” é a informação mais útil que você leva para a consulta, e ela não sai de exame nenhum: sai de você ter reparado.
A literatura brasileira confirma essa dificuldade em vez de escondê-la. Num estudo com 48 cães positivos atendidos em hospital veterinário, a palidez de mucosas apareceu com predominância estatisticamente significativa entre os achados clínicos, segundo a Ciência Rural. Mas os próprios autores concluem que as alterações em cães com E. canis são bastante inespecíficas: o estudo diz o oposto de “existe um sinal que fecha o caso”.
Na prática: nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. O que a palidez faz é mudar a sua agenda. Se o seu cão teve carrapato nas últimas semanas e você encontra a gengiva clara, o assunto deixou de ser observação e virou consulta. Reconhecer que o animal está mal é habilidade que se treina, e vale ler sobre os sinais de dor em gatos e cachorros: cão com dor raramente reclama do jeito que a gente espera.
Como Olhar a Gengiva, e o que ela NÃO responde
Levante o lábio superior do seu cão, na lateral. A gengiva saudável da maioria dos cães é rosa, cor de chiclete. Pressione com o polegar por um segundo e solte: a área fica branca e volta ao rosa quase imediatamente.
O que chama atenção é a gengiva claramente mais pálida do que o habitual daquele cão, esbranquiçada ou rosa apagado. E o “habitual daquele cão” importa: alguns têm pigmentação escura na gengiva, e nesses o lugar de olhar é a parte interna da pálpebra inferior. Faça isso uma vez com o animal saudável, num dia comum: é o único jeito de ter parâmetro de comparação no dia em que precisar.
E aqui vai o limite: gengiva rosa não descarta a doença do carrapato. A infecção tem uma fase sem sinal nenhum, e os próprios autores do estudo brasileiro concluem que os achados são inespecíficos. Olhar a gengiva serve para você perceber cedo o que mudou, não para se autorizar a não ir. Quem decide se há infecção é o exame, não a cor da mucosa.
Qual o primeiro sinal da doença do carrapato no cachorro?
Não existe um primeiro sinal exclusivo. O quadro inicial costuma ser apatia, febre e perda de apetite, inespecífico o bastante para ser confundido com cansaço. O achado mais acessível em casa é a mucosa pálida: compare a gengiva com a cor de um dia normal. Ela não fecha diagnóstico, e a ausência dela não descarta nada.
Quais São as 3 Fases da Doença do Carrapato?
Começo pelo que os artigos costumam pular: as três fases descritas a seguir são da erliquiose, a mais comum das doenças do carrapato, e não valem para todas elas. A babesiose tem curso próprio, tipicamente agudo e com destruição de glóbulos vermelhos, e não segue esta sequência. A distinção muda o relógio: um tutor com cão babesiótico que leia “três fases” pode concluir que tem semanas quando tem dias.
Dito isso, o mapa da erliquiose é bem estabelecido. Segundo a diretriz para veterinários publicada na Parasites & Vectors, depois de uma incubação de 1 a 3 semanas, três fases típicas podem se desenvolver sequencialmente: aguda, subclínica e crônica. A tabela abaixo traduz isso para o que o tutor vê em casa, que é a informação que falta na maioria dos materiais: eles listam achado de laboratório para um leitor que não tem laboratório.
| Fase | Quanto costuma durar | O que o tutor vê em casa | O que o exame mostra | Prognóstico com tratamento |
|---|---|---|---|---|
| Aguda | 2 a 4 semanas, após incubação de 1 a 3 semanas | Apatia, febre, menos apetite, às vezes gengiva pálida | Queda de plaquetas (trombocitopenia), as células que fazem o sangue coagular | Bom quando o curso completo de tratamento é administrado; a melhora costuma vir em 24 a 48 horas |
| Subclínica | Meses a anos | Nada. O cão parece recuperado e não aparenta precisar de atenção veterinária | Alterações podem persistir mesmo sem sinal clínico | Favorável quando o tratamento começa aqui. É a fase que engana: o cão parece recuperado e a infecção persiste |
| Crônica | Sem prazo fixo publicado | Emagrecimento, sangramentos, palidez acentuada, prostração que não passa | Nas formas crônicas, pancitopenia em 15% a 20% dos casos clínicos | Grave na forma crônica severa |
Fonte das fases, durações e prognósticos: Sainz et al., diretriz sobre erliquiose e anaplasmose caninas, Parasites & Vectors, 2015; o desfecho da fase subclínica tratada vem de McClure et al., Antimicrobial Agents and Chemotherapy, 2010. Atenção ao escopo: a babesiose não segue este curso, é tipicamente aguda e hemolítica, e não é tratada com o mesmo antibiótico. Cão com suspeita de babesiose não tem o intervalo de semanas que esta tabela descreve.
Repare na fase subclínica: é a única linha em que o tutor não vê nada, e por isso ela pode passar inteiramente despercebida em casa.
Qual É a Pior Fase da Doença do Carrapato?
A crônica, e mais precisamente a forma crônica severa. A diretriz publicada na Parasites & Vectors é direta: nela o prognóstico é grave. Nessa altura a medula óssea, a fábrica de células do sangue, já foi comprometida, e o quadro descrito é de pancitopenia, a queda simultânea das três linhagens de células sanguíneas, presente em 15% a 20% dos casos clínicos das formas crônicas.
Duas coisas precisam ser ditas juntas, porque separadas as duas mentem. A primeira é que nem todo cão infectado chega lá: a literatura registra que alguns, mas não todos, podem avançar para a fase crônica, e exagerar para o lado do medo numa doença que de fato mata é tão defeituoso quanto minimizar. A segunda é que o risco da fase intermediária é justamente a falsa sensação de resolução: o cão pode parecer bem apesar de a infecção persistir, e é dessa aparência de normalidade que parte dos casos graves vem.
A própria literatura discorda sobre a fase crônica. Um estudo no Journal of Veterinary Internal Medicine eliminou a E. canis de cães infectados havia quatro meses; outro, no Antimicrobial Agents and Chemotherapy, não conseguiu o mesmo em cães infectados havia 505 dias, com número muito pequeno de animais. A divergência é sobre o que cada um chama de crônico, e não derruba o argumento do prazo: reforça. Não é um degrau, é um gradiente.
Doença do Carrapato Tem Cura?
Tem, e a resposta honesta é por fase, não uma linha só. O que segue vale para a erliquiose, que é a doença do carrapato tratada principalmente neste guia.
Na fase aguda, a resposta ao tratamento é rápida e o prognóstico é bom quando o curso completo de terapia é administrado, segundo a diretriz europeia para veterinários.
A diretriz é explícita sobre a condição: o prognóstico bom está atrelado ao tratamento inteiro, não ao início dele. É a diferença entre o cão que melhora e o cão que sara. Na fase subclínica não há sintoma para acompanhar, e o tratamento se decide por exame e histórico. Na forma crônica severa o prognóstico é grave: o tratamento continua indicado e cães se recuperam, mas a conversa passa a envolver suporte, transfusão em parte dos casos e a chance real de que o dano à medula não se reverta.
É por isso que eu não respondo “tem cura?” com um sim de uma linha. O sim é verdadeiro e incompleto: a pergunta útil não é se tem cura, é em que fase você está tratando.
Como É o Tratamento da Doença do Carrapato?
O tratamento de escolha da erliquiose é a doxiciclina, um antibiótico, e a diretriz da Parasites & Vectors nomeia isso sem rodeios. Em parte dos casos entram medidas de suporte, e nos quadros graves com anemia intensa pode haver necessidade de transfusão.
E agora a parte que este artigo não vai fazer, com o motivo escrito. Você não vai encontrar aqui a dose, o intervalo nem a duração do esquema. Não é descuido nem esquiva: a doxiciclina se compra em farmácia comum, e o tutor que sai daqui com um número na cabeça vira o tutor que arbitra a própria dose.
Tratamento inadequado, inclusive dose ou duração insuficientes, pode comprometer a resposta e favorecer a persistência da infecção. A doxiciclina deve ser usada no cão somente com orientação veterinária, porque indicação, dose, duração e necessidade de acompanhamento dependem do quadro clínico e de exames que este texto não tem como ver. A mesma régua vale para corticoide, analgésico e qualquer suporte: nomear o que existe é informação, publicar posologia é protocolo, e protocolo sem diagnóstico é risco.
Sobre remédio caseiro, sou categórica: não existe. Nenhum chá, nenhum composto manipulado sem prescrição, nenhum protocolo de grupo de rede social trata infecção bacteriana intracelular. E o pior que essas alternativas fazem não é falhar: é consumir tempo, enquanto a doença anda para a fase que não dá sinal.
Sobre custo, porque ele pesa na decisão de ir ou não ir: consulta, hemograma e tratamento na fase aguda custam uma fração da internação de um cão em fase crônica com sangramento. Escrevi sobre o valor da consulta veterinária e o que compõe essa conta.
Doença do Carrapato em Cachorro Passa para Humanos?
Começo pela fronteira: quem responde por sintoma em pessoa é serviço de saúde, não veterinário. O que eu entrego aqui é o que você faz com o carrapato e com o cão.
A erliquiose do cão, causada pela E. canis, não é transmitida do seu animal para você. O MSD Veterinary Manual registra que cães e outros animais infectados não representam risco direto de transmissão para humanos em circunstâncias normais, e a E. canis não figura entre as espécies do gênero listadas como zoonóticas.
Existe, porém, uma doença humana grave ligada a carrapatos no Brasil, e a confusão entre as duas é comum: a febre maculosa. E a informação que interessa é que são doenças distintas, com agentes distintos e vetores que não se confundem. A erliquiose do cão é transmitida pelo carrapato-marrom-do-cão, o Rhipicephalus sanguineus.
A febre maculosa é causada pela Rickettsia rickettsii e, no Brasil, transmitida por carrapatos do gênero Amblyomma, entre eles o Amblyomma aureolatum, o carrapato-amarelo-do-cão. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo descreve o mecanismo com clareza: cães e gatos domésticos, quando invadem áreas de mata, podem carrear carrapatos infectados para as residências, sendo comum a ocorrência da doença em pessoas.
Traduzindo: o seu cão não te passa a doença dele, mas pode trazer para casa o carrapato de outra. É risco de transporte, não de contágio pelo animal.
O que fazer é objetivo. Ao encontrar um carrapato aderido, o Ministério da Saúde orienta remover com uma pinça, sem apertar nem esmagar, puxando com cuidado e firmeza, e depois lavar a área com água e sabão ou álcool. E se alguém da casa desenvolver sintomas depois de exposição a carrapato, procure atendimento informando essa exposição, porque é isso que permite a suspeita precoce. A febre maculosa tem letalidade elevada e é de notificação obrigatória. Não vou listar sintomas humanos aqui para você se autodiagnosticar: o que cabe é remover certo e contar a exposição a quem vai atender.
Como Prevenir a Doença do Carrapato Depois do Susto
A prevenção da doença do carrapato é, na prática, controle de carrapato, e é a parte da história em que o tutor tem controle real. Três coisas mudam o resultado.
A primeira é o antiparasitário certo, respeitando o intervalo de proteção indicado para aquele produto, que varia de um para outro: há os mensais e há os de duração mais longa. A segunda é o ambiente: o carrapato-marrom vive em fresta, rodapé, tapete e caixa de transporte, e tratar só o animal deixa a fonte intacta. A terceira é a revisão de pelo depois do passeio, que leva dois minutos e foi como eu achei o do Bertão. Orelha, pescoço, entre os dedos e virilha são os lugares de olhar.
Qual produto usar é decisão à parte, com critérios de espectro, duração e peso, e eu comparei os principais em Bravecto, NexGard ou Simparic. A regra geral: prevenção contínua vale mais do que reação, e sai mais barata.
Em quanto tempo a doença do carrapato pode matar o cachorro?
Não há prazo fixo publicado em fonte oficial, e desconfie de quem der um número. O que muda o desfecho não é o relógio, é a fase em que o tratamento começa: bom na fase aguda com o curso completo, grave na forma crônica severa. Por isso a conduta é procurar avaliação assim que houver sinal.
Minha Recomendação Direta sobre a Doença do Carrapato
Cão que teve carrapato e apresenta apatia, febre ou gengiva clara precisa de avaliação em dias, não em semanas.
O que me convence não é a gravidade da doença, é o formato dela: a doença do carrapato não avisa quando passa de fase. Ela melhora sozinha, deixa o tutor tranquilo e continua andando. É essa arquitetura, e não a virulência, que explica os casos graves que eu vejo chegarem tarde.
- Tirou o carrapato e o cão está bem: não precisa correr, mas observe de verdade por três a quatro semanas, que é quando a fase aguda costuma aparecer. Anote a data: ela é a informação que muda a investigação depois. Estar sem sinal não é o mesmo que estar livre da infecção, e qualquer mudança de apetite, disposição ou cor de mucosa vira consulta.
- Cão apático, febril ou comendo menos, com carrapato recente: consulta em dias, e diga ao veterinário a data em que achou o carrapato. Essa data muda a investigação.
- Gengiva pálida: consulta agora, sem esperar o próximo sinal.
- Diagnóstico feito e o cão melhorou em dois dias: termine o tratamento inteiro. O prognóstico bom está condicionado ao curso completo.
- Emagrecimento, sangramento ou prostração longa: é emergência. Vá hoje.
Com o Bertão eu fiz exatamente isso, e sem drama: tirei o carrapato com pinça, anotei a data no celular e passei um mês acompanhando quatro coisas todo dia, a gengiva entre elas, junto com apetite, disposição e se ele estava quente ao toque. Nenhuma das quatro mudou.
Isso não é o mesmo que provar que ele não se infectou, e seria desonesto escrever aqui que eu descartei a doença olhando a boca do meu cachorro. O que a observação me deu não foi tranquilidade: foi a chance de perceber no primeiro dia se algo mudasse. Se a gengiva tivesse clareado, ou se ele tivesse ficado quieto dois dias seguidos, eu teria ido na mesma hora.
Perguntas Frequentes sobre a Doença do Carrapato
Tem cura a doença de carrapato?
Tem, e a resposta muda conforme a fase. Na fase aguda, a melhora clínica costuma começar em 24 a 48 horas e o prognóstico é bom quando o curso completo de terapia é administrado, segundo a diretriz da Parasites & Vectors. Na forma crônica severa, o prognóstico é grave. A pergunta útil não é se tem cura: é em que fase o tratamento começa.
Quais são os sintomas da doença do carrapato?
Os iniciais são inespecíficos: apatia, febre, queda de apetite e o cão mais quieto do que o habitual. Pode haver palidez de mucosas, que em estudo brasileiro apareceu com predominância estatisticamente significativa. Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico, e a ausência deles não descarta a doença. O que muda a conduta é sinal novo em cão que teve carrapato há poucas semanas.
Quais são os 3 tipos de doença do carrapato?
“Doença do carrapato” não tem exatamente três tipos: o nome é popular e cobre diferentes infecções transmitidas por carrapatos. Entre as mais conhecidas em cães estão a erliquiose, causada pela Ehrlichia canis; a babesiose, que destrói glóbulos vermelhos; e a anaplasmose. Têm agentes e cursos distintos e, no caso da babesiose, tratamento distinto, e é justamente por isso que o diagnóstico laboratorial importa. Tratá-las como uma só pode atrasar a investigação e a escolha do tratamento.
Como um cachorro fica com a doença do carrapato?
Pela picada de um carrapato infectado. No caso da erliquiose, o transmissor é o carrapato-marrom-do-cão, o Rhipicephalus sanguineus, que é urbano e vive em frestas, rodapés, canis e garagens, sem depender de mato. O cão não pega de outro cão por contato direto. Depois da picada, segue-se um período de incubação de 1 a 3 semanas antes de os primeiros sinais aparecerem, quando aparecem.
Qual é a pior fase da doença do carrapato?
A crônica, especificamente a forma crônica severa, cujo prognóstico a literatura veterinária classifica como grave. Nela a medula óssea está comprometida e pode haver pancitopenia, a queda das três linhagens de células do sangue, presente em 15% a 20% dos casos clínicos das formas crônicas. Nem todo cão infectado chega a essa fase, mas quem chega costuma ter passado pela fase silenciosa sem tratamento.
Quanto tempo dura um cachorro com a doença do carrapato?
Não existe prazo publicado em fonte oficial, e qualquer número específico seria invenção. A literatura descreve a sequência: incubação de 1 a 3 semanas, fase aguda de 2 a 4 semanas e, em parte dos cães, fases posteriores de duração variável. O que muda o desfecho é a fase em que o tratamento começa, não um cronômetro, e é por isso que a orientação é agir assim que o primeiro sinal aparece.
Qual antibiótico trata a doença do carrapato?
A doxiciclina é o tratamento de escolha para a erliquiose, conforme a diretriz da Parasites & Vectors. A dose não está neste artigo de propósito: ela depende do peso e de exames, e a doxiciclina se compra em farmácia comum. Dose ou duração insuficientes podem comprometer a resposta e favorecer a persistência da infecção. Quem define indicação, dose e duração é o veterinário que examinou o animal.
Como se manifesta a doença do carrapato em humanos?
A erliquiose do seu cão não passa para você: o MSD Veterinary Manual registra que animais infectados não representam risco direto de transmissão em circunstâncias normais. A doença humana ligada a carrapatos que preocupa no Brasil é a febre maculosa, transmitida por carrapatos do gênero Amblyomma. Quem avalia sintoma em pessoa é serviço de saúde: ao procurar atendimento, informe a exposição.
Qual a chance de cura da doença do carrapato?
Não dá para responder com percentual honesto: isso exigiria um estudo com desenho próprio, e quem publica número redondo costuma não ter esse estudo. O que a literatura sustenta é qualitativo e por fase: prognóstico bom na fase aguda com o curso completo de terapia, e grave na forma crônica severa. A chance melhora quanto mais cedo o tratamento começa.
Cachorro pode pegar doença do carrapato mesmo tomando antipulgas?
Pode, e isso não significa que o produto falhou. Nenhum antiparasitário garante proteção absoluta: eles reduzem muito a exposição, principalmente quando a periodicidade é respeitada e o ambiente é tratado junto. Entre as razões possíveis estão falha de dose, atraso na reaplicação e infestação do ambiente. A conduta não muda: cão com sinal e histórico de carrapato merece avaliação, esteja ou não sob antiparasitário.
Leia também
Fontes e Referências
- SAINZ Á, Roura X, Miró G, Estrada-Peña A, Kohn B, Harrus S, Solano-Gallego L. “Guideline for veterinary practitioners on canine ehrlichiosis and anaplasmosis in Europe.” Parasites & Vectors, 2015;8:75. Consultado: incubação, as três fases e a duração da aguda; prognósticos por fase; início da melhora clínica em 24 a 48 horas na fase aguda; pancitopenia em 15-20% dos casos crônicos; doxiciclina como tratamento de escolha; necessidade de tratar o ambiente além do animal. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- MSD Veterinary Manual. “Ehrlichiosis in Dogs”. Consultado: ausência de risco direto de transmissão de animais infectados para humanos em circunstâncias normais. Disponível em: msdvetmanual.com
- SOUSA, V. R. F. et al. “Avaliação clínica e molecular de cães com erliquiose”. Ciência Rural, v. 40, n. 6, p. 1309-1313, 2010. Consultado: predominância estatisticamente significativa de palidez de mucosas em 48 cães positivos, e a conclusão dos autores de que as alterações clínicas são inespecíficas. Disponível em: doi.org
- SILVA, J. N. et al. “Soroprevalência de anticorpos anti-Ehrlichia canis em cães de Cuiabá, Mato Grosso”. Consultado: 42,5% de soropositividade (108 de 254 cães) em inquérito domiciliar, maioria assintomática. Disponível em: doi.org
- EDDLESTONE SM et al. “Doxycycline clearance of experimentally induced chronic Ehrlichia canis infection in dogs.” Journal of Veterinary Internal Medicine, 2007;21(6):1237-42. DOI 10.1892/07-061.1. PMID 18196732. Consultado: eliminação do agente em cães infectados havia quatro meses.
- McCLURE JC et al. “Efficacy of a doxycycline treatment regimen initiated during three different phases of experimental ehrlichiosis.” Antimicrobial Agents and Chemotherapy, 2010;54(12):5012-20. DOI 10.1128/AAC.01622-09. Consultado: ausência de eliminação em cães infectados havia 505 dias, com número reduzido de animais.
- Ministério da Saúde. “Febre maculosa”. Consultado: Rickettsia rickettsii como agente etiológico; remoção do carrapato com pinça sem esmagar, higienização da área, letalidade elevada e notificação obrigatória. Disponível em: gov.br
- Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo. “Febre Maculosa Brasileira”. Consultado: Amblyomma como vetor, o A. aureolatum como carrapato-amarelo-do-cão e o transporte de carrapatos infectados por cães e gatos para as residências. Disponível em: prefeitura.sp.gov.br
Veterinária e tutora do Bertão (labrador), Freud e Jung (gatos). Formação UNESP Botucatu, especialização FMVZ/USP. Escreve sobre o que ela mesma precisou aprender ao cuidar dos próprios pets.

Por Dra. Camila Torres
