Na primeira noite ele não comeu. Ficou atrás do sofá, com a cabeça virada para a parede, e só saiu quando todo mundo já tinha ido dormir. Eu passei aquela madrugada achando que tinha feito alguma coisa errada, e o mais estranho é que, quando adotei um cachorro pela primeira vez, achei que a parte difícil tinha sido a decisão.

Não foi. A parte difícil é o que vem depois, e quase tudo que se escreve sobre adoção termina no dia em que o animal entra em casa. É nos meses seguintes que muita gente conclui coisas definitivas sobre um animal que ainda está se organizando.

Foi isso que eu não sabia quando adotei um cachorro: os primeiros 90 dias são o seu prazo de trabalho, não o prazo em que o pet fica pronto. Servem para montar rotina, cuidar da saúde e observar como o comportamento muda conforme ele ganha segurança. Alguns animais se ajustam antes, outros levam vários meses.

  • Adotei um cachorro ou um gato: os 90 dias são uma janela prática de trabalho e observação, não um prazo em que o animal fica pronto.
  • O pet que chega quieto e obediente na primeira semana costuma estar retraído, e é conforme ele ganha segurança que aparece o comportamento habitual dele.
  • Cão e gato pedem coisas diferentes na chegada: o cão se organiza por rotina previsível, o gato por controle do próprio espaço.
  • Em filhote, os três primeiros meses de vida são o período mais sensível para socialização; em adulto, esse período já passou e o trabalho é outro.
  • Evite conclusões definitivas baseadas só nas primeiras semanas, mas não adie avaliação, manejo ou tratamento quando houver sofrimento, dificuldade persistente ou risco.

Por que o Pet Recém-Chegado se Esconde, e Quanto Tempo Isso Dura?

Período de adaptação é o intervalo entre a chegada do pet na casa nova e o momento em que ele passa a se comportar como vai se comportar dali em diante. É um conceito de comportamento, não um calendário fixo, e é por isso que ele varia tanto de animal para animal.

O que não varia é o começo. Entrar num ambiente desconhecido aciona a resposta fisiológica de estresse, e isso já foi medido. Num estudo que avaliou 166 cães na entrada de um abrigo público, Hennessy e colegas registraram que o cortisol plasmático dos que permaneceram nove dias caiu entre o segundo e o nono dia.

Esse dado precisa ser lido pelo que ele é. A medição foi feita dentro de um abrigo, com confinamento, ruído, manejo coletivo e presença de outros cães, e não na sala da sua casa. Ele não estabelece quanto tempo o seu cão vai levar para se adaptar. O que ele mostra é que a resposta ao ambiente desconhecido pode permanecer alterada por vários dias, o que ajuda a explicar por que o desconforto raramente desaparece em 24 ou 48 horas.

Isso resolve a dúvida mais comum da primeira semana: quando o animal se esconde, recusa comida ou parece apático, ele não está rejeitando você, e no quarto dia ainda arredio continua dentro do esperado.

O erro clássico aqui é querer acelerar. Chamar visitas para conhecer o novo cão, dar banho, levar ao petshop, apresentar aos vizinhos. Cada uma dessas coisas é um estímulo novo empilhado sobre um animal que ainda não processou o primeiro. O Bertão passou os quatro primeiros dias fazendo três coisas: comer quando a casa estava vazia, dormir e me observar de longe. Eu mantive os horários iguais, e foi o suficiente.

Vale uma distinção que quase nenhum texto faz: vir de abrigo, ser transferido direto de outra família, ser resgatado da rua ou ser um filhote que nunca passou por nada disso são situações diferentes. O histórico muda o ponto de partida, e quem veio de confinamento coletivo costuma precisar de mais silêncio do que um filhote entregue pelo criador.

adotei um cachorro: quatro cenas da chegada de um pet, do cão adulto ao filhote
A chegada tem quatro cenas diferentes, e nenhuma delas é o pet correndo para o seu colo.

Cachorro e Gato se Adaptam do Mesmo Jeito?

Não, e essa é a confusão que mais atrapalha quem adota os dois ou já tem um e traz o outro.

O cão se organiza por rotina: ele precisa entender a que horas come, onde dorme, quais são os limites da casa e o que acontece quando a porta se fecha. Previsibilidade é o que baixa a tensão. O gato se organiza por controle do território: ele precisa poder escolher para onde ir, ter altura, ter esconderijo, e não ser obrigado a comer perto de onde faz as necessidades. As diretrizes de necessidades ambientais felinas da AAFP e da ISFM organizam isso em cinco pilares, e o primeiro deles é ter um espaço seguro, um refúgio de onde o gato não seja retirado.

Foi o que aconteceu quando o Freud e o Jung chegaram, em 2019. Irmãos da mesma ninhada, reagiram de formas opostas ao mesmo cômodo: o Jung dormiu no meio da sala já no primeiro dia, e o Freud escolheu o vão em cima do armário e ficou lá quase uma semana. Se eu tivesse tirado o Freud de lá para forçar contato, teria transformado o único ponto de segurança dele em mais um lugar de ameaça. Ele desceu sozinho no sexto dia.

O que priorizar na chegadaCãoGato
Primeira necessidaderotina previsível (horários fixos de comida e passeio)controle do espaço (esconderijo e altura disponíveis)
Espaço inicialum cômodo de referência, com acesso gradual ao restoum cômodo só, com todos os recursos dentro
Recursos separadoságua longe do local de descansocomida, água e caixa de areia em pontos distintos
Sinal de que está indo bemprocura você por iniciativa própriasai do esconderijo com a casa em movimento
O que atrasaexcesso de visitas e passeios longos demaisforçar contato, pegar no colo, retirar do refúgio
Resposta direta

Onde o filhote deve dormir nos primeiros dias?

Uma opção que costuma funcionar é no mesmo cômodo que você, em cama própria no chão. Filhote separado chora porque perdeu a ninhada, não por manha. Se depois você quiser mudar o lugar, faça a transição de forma gradual. O que atrapalha é alternar sem critério entre um cômodo e outro.

Adotei um Filhote ou um Adulto: o que Muda no Plano?

Muda o relógio biológico com que você está trabalhando.

Em filhote, os três primeiros meses de vida são o período mais sensível para socialização: é quando o cérebro aceita novidade com mais facilidade, e experiências positivas nessa fase têm efeito duradouro. A American Veterinary Society of Animal Behavior recomenda que a socialização comece antes do fim do protocolo vacinal, com a primeira dose aplicada e o filhote saudável. O argumento da entidade é de balanço de risco: problemas comportamentais estão entre as principais causas de abandono e de eutanásia em cães jovens, então o isolamento completo até a última dose também produz risco, e não só proteção.

Isso não significa que depois dos três meses a porta se feche. O cão continua capaz de aprender e de se dessensibilizar a coisas novas pela vida inteira, e o que muda é o método: o processo passa a ser mais gradual e exige mais cuidado. Quem adotou um cão de dois anos que nunca viu criança não perdeu o bonde, tem um trabalho diferente pela frente.

Isso cria a tensão que todo tutor de filhote vive, entre proteger da doença e não perder o melhor momento da socialização. A saída é a exposição segura, sem chão de rua e sem contato com cão desconhecido, começando antes da última dose. Como montar essa exposição depende de onde você mora e de quais cães vacinados você tem acesso, e é assunto de um protocolo próprio.

Em adulto o trabalho é de leitura de histórico. O animal chega com repertório pronto, e boa parte do que ele faz nas primeiras semanas é resposta a coisas que aconteceram antes de você. Um tutor que atendi passou três semanas convencido de que tinha adotado um cão agressivo, quando o que havia era um animal que nunca tinha subido escada e entrava em pânico no primeiro degrau.

Quanto Tempo o Pet Leva para se Acostumar com o Novo Dono?

Não existe prazo único, e quem promete um está inventando.

A “regra dos 3 dias, 3 semanas e 3 meses” circula em praticamente todo abrigo do mundo, e a estrutura dela é boa: reconhece que existem fases com expectativas diferentes. O problema é o prazo final. Não localizei estudo publicado que valide esses marcos, e o pouco que existe sobre adotantes reais mostra variação grande. Num estudo qualitativo com 27 tutores que adotaram cães no Reino Unido, 30% descreveram o cão como adaptado em até três meses e 41% entre quatro e seis meses, enquanto outros relataram períodos maiores e 19% ainda não o consideravam adaptado na data da entrevista.

Esse número serve de referência, não de estatística populacional: são 27 participantes, todos ainda com seus cães, e “adaptado” foi a percepção de cada tutor, sem instrumento validado. Ainda assim, diz o essencial: ao fim dos 90 dias você costuma ter um retrato bem mais confiável do animal, mesmo que algumas coisas continuem mudando depois.

FaseO que costuma ser normalO que merece atençãoO que fazer
Primeiros diasesconder, comer pouco ou só sozinho, dormir muito, evitar contatorecusa alimentar, vômito, diarreia, prostraçãomanter horários fixos, reduzir estímulo, deixar o animal escolher a distância
Semanas 2 a 4testar limites, aparecer mais, primeiros latidos ou miados, sono mais levemedo ou reatividade que aumentam em vez de diminuir, lambedura ou mordedura repetida do próprio corpofirmar rotina, iniciar treino curto e positivo, consulta de acompanhamento
Mês 2 ao 3comportamentos novos que não existiam, mais confiança, mais opiniãocomportamento que oferece risco a pessoas, a outros animais ou a ele mesmoreavaliar com dado, buscar ajuda profissional se houver risco, ajustar o plano
adotei um cachorro: as três fases dos primeiros 90 dias e o que fazer em cada uma
Os 90 dias em três fases. A linha não é uma escada subindo, e o mês 2 costuma parecer pior que a semana 1.
adotei um cachorro: 41% dos tutores levaram de 4 a 6 meses para considerar o cão adaptado
A percepção de quem adotou, num estudo pequeno: a maioria levou mais de três meses.

Sobre a coluna do meio, uma ressalva que importa: recusa alimentar não tem um prazo único que sirva para todos. Filhote, animal idoso, acima do peso ou com doença prévia pode piorar mais rápido, e nesses casos a conversa com o veterinário não espera. O mesmo vale para redução persistente da ingestão de água.

E a linha do tempo não é uma escada subindo. É comum o mês 2 parecer pior que a semana 1, e isso não é retrocesso. Um animal que passa a latir, a pedir, a se meter e a discordar é um animal que se sente seguro o suficiente para fazer isso.

Quando o Comportamento Vira Problema de Saúde?

Existe uma faixa em que a resposta certa deixa de ser paciência e passa a ser atendimento, e ela é mais estreita do que a maioria dos textos sobre adaptação admite.

Os primeiros dias em ambiente novo são um período de risco sanitário reconhecido, não só emocional. As diretrizes da Association of Shelter Veterinarians para padrões de cuidado registram que as condições da primeira semana em ambiente coletivo afetam de forma direta a taxa de doença respiratória, o que importa aqui porque boa parte dos animais adotados vem exatamente desse contexto. Um pet que chega espirrando ou com fezes amolecidas pode estar apenas estressado, e pode estar incubando algo que pegou antes de chegar.

A régua que eu uso separa dois níveis, e a diferença entre eles não é detalhe.

Procure atendimento imediato, sem esperar horário comercial, se houver dificuldade respiratória, gengivas muito pálidas ou azuladas, desmaio, convulsão, alteração de consciência ou incapacidade de ficar em pé.

Marque consulta em prazo curto, avaliando intensidade, duração, idade e estado geral, se houver tosse, espirro com secreção, vômito, diarreia, recusa alimentar ou queda importante na ingestão de água. Em filhote, idoso ou animal com doença prévia, encurte esse prazo e ligue para o veterinário antes de decidir esperar.

A informação mais valiosa que você leva na consulta é de onde o animal veio e há quanto tempo está com você. Já mudança de humor, esconder e sono irregular nos primeiros dias entram na faixa de observação, com um limite: se não melhorarem nada até o fim da segunda semana, viram assunto de consulta também. E vale saber que animais escondem dor por instinto, o que torna os sinais sutis mais importantes que os óbvios. Os indicadores que ajudam a diferenciar desconforto de ajuste estão no artigo sobre sinais de dor em gatos e cachorros.

adotei um cachorro: quais sinais pedem atendimento imediato e quais pedem consulta em prazo curto
Nem todo sinal espera. A coluna da esquerda é para agora, a da direita é para os próximos dias.

Adotei um Cachorro e me Arrependi: o que Fazer?

Essa pergunta aparece na busca todos os dias e quase ninguém a responde com seriedade, o que deixa quem está sentindo isso convencido de que é uma pessoa ruim. Não é. É um dos momentos mais previsíveis do processo, e vale igual para quem adotou gato.

O arrependimento pós-adoção aparece na literatura. No estudo com adotantes britânicos, tutores descreveram em entrevista o que sentiram no meio do período de ajuste, com frases como “houve momentos em que eu definitivamente me arrependi de tê-lo pegado” e “um dia eu quero devolvê-la e no dia seguinte eu penso, ah, será que eu posso?”. Vários deles descreveram a relação como resolvida meses depois.

Comportamento também pesa no desfecho. No levantamento de Salman e colegas com 1.984 cães e 1.286 gatos entregues a 12 abrigos, 40% dos cães e 28% dos gatos tinham ao menos um motivo comportamental na entrega. Esse dado descreve motivos declarados na entrega a abrigos, não devoluções pós-adoção especificamente, e não diz que aqueles comportamentos eram passageiros. O que ele mostra é o peso do comportamento na decisão de entregar um animal, e é justamente por isso que vale distinguir, caso a caso, o que é resposta transitória de adaptação e o que é problema que precisa de intervenção.

Foi por aí que eu cheguei à conduta que recomendo: em vez de esperar, avaliar cedo. Se o comportamento está incomodando a ponto de você pensar em desistir, esse é o momento de procurar ajuda profissional, e não de aguardar um prazo.

Isso não significa suportar qualquer coisa. Entre as situações que exigem ação imediata estão risco real de mordida em pessoa da casa, ferimento entre animais residentes, comportamento predatório contra animal menor, sofrimento intenso do próprio animal, condição de saúde ou alergia grave de alguém da família, e impossibilidade material de garantir manejo básico. Nesses casos, procurar a instituição de origem cedo é o certo, e é melhor para o animal do que arrastar por meses.

Resposta direta

Quanto tempo demora para um cão se acostumar com um novo dono?

Não existe prazo único. Num estudo qualitativo com 27 adotantes, 30% perceberam a adaptação em até três meses e 41% entre quatro e seis meses, e parte relatou períodos maiores. Os 90 dias servem para montar rotina e conhecer o animal, não para ele ficar pronto.

Minha Recomendação Direta sobre os Primeiros 90 Dias

Minha recomendação

Trate os 90 dias como o seu período de organização e observação, não como um prazo de espera. Na prática: monte rotina fixa desde o primeiro dia, reduza estímulo na primeira semana, faça a consulta inicial logo, comece observação ativa na segunda semana e registre o que vê.

E aqui está a parte que quase todo texto sobre adaptação erra, inclusive a primeira versão deste. Evitar decisão irreversível não é a mesma coisa que adiar ajuda. O que faz sentido segurar são as decisões que não têm volta, como devolver o animal ou concluir que ele não serve para a sua casa. O que não deve esperar é avaliação veterinária, manejo, treinamento com reforço positivo e tratamento quando houver indicação, porque medo, ansiedade e reatividade tendem a se consolidar quando ficam sem intervenção. Adiar cuidado em nome de um calendário é trocar um erro por outro.

O que me faz insistir nisso é o que a evidência permite dizer sobre o tempo. No trabalho que acompanhou cães adotados com um questionário validado, aos 7, 30, 90 e 180 dias, 76,9% dos cães apresentavam algum grau de agressão dirigida a estranhos aos 180 dias, e o modelo encontrou aumento significativo desse escore ao longo do período em relação à primeira avaliação. Esse número pede leitura cuidadosa: “algum grau” significa qualquer pontuação acima de zero no questionário, a subescala inclui manifestações territoriais de intensidades diferentes, e isso está longe de significar que três em cada quatro cães morderam alguém. Foram 99 adotantes recrutados, com 62 completando os quatro questionários, todos de abrigo. É evidência canina e de abrigo, que não se transfere para gato nem para filhote de criador.

Mesmo com esses limites, ela sustenta o ponto prático: o comportamento continua se modificando bem depois das primeiras semanas, e quem conclui coisas definitivas na semana 3 está concluindo sobre um animal que ainda está se organizando.

A recomendação muda de forma conforme o seu caso:

  • Se você adotou um filhote com menos de três meses: a prioridade é a socialização segura, não a obediência. Exposição variada e positiva vale mais do que ensinar comandos agora. E a boca vai aparecer no meio disso: o que separa a mordida de brincadeira da que já não é não é a força do dente, é o contexto.
  • Se você adotou um cão adulto: a prioridade é rotina e leitura de histórico. Trate cada reação estranha como informação sobre o passado dele, não como defeito de caráter.
  • Se você adotou um gato, de qualquer idade: a prioridade é o ambiente. Refúgio, altura e recursos separados, com a aproximação partindo dele. A cronologia de 90 dias descrita aqui vem de estudos com cães, então no gato use os mesmos princípios de observação sem esperar o mesmo calendário.
  • Se você está no mês 2 e pensando em desistir: procure avaliação de comportamento agora, não daqui a um mês. A decisão de devolver é que pode esperar essa avaliação.
  • Se houver risco de ferimento a pessoa ou a outro animal da casa: não espere prazo nenhum. Procure a instituição de origem e um profissional de comportamento imediatamente.

O Bertão fez nove anos este ano e continua dramático, goloso e pesando mais do que deveria. Nada disso apareceu na primeira semana, quando ele era o cão mais quieto que eu já tinha visto. Se eu tivesse decidido quem ele era naquele primeiro fim de semana atrás do sofá, teria errado por completo.

Perguntas Frequentes sobre Adotar um Cachorro ou um Gato

O que fazer depois de adotar um cachorro?

Nas primeiras 24 horas, três coisas resolvem quase tudo: definir um cômodo de referência, fixar horários de comida e água, e reduzir ao mínimo pessoas e estímulos novos. Nada de visitas, banho ou petshop na primeira semana. A consulta inicial deve acontecer nos primeiros dias, principalmente se o animal veio de abrigo ou da rua, e serve para checar saúde e organizar vacinas e vermifugação a partir do histórico. Depois, o trabalho é observar: anote o que ele come, como dorme e do que se esconde. Esse registro vale mais que palpite quando você precisar decidir algo no mês seguinte.

Eu adotei um cachorro e me arrependi. O que devo fazer?

Isso é comum, aparece em pesquisa com adotantes e não significa que você errou ao adotar. A conduta que eu recomendo é procurar avaliação com profissional de comportamento agora, sem esperar prazo: se o incômodo chegou ao ponto de você pensar em desistir, ele já justifica ajuda. O que faz sentido adiar é a decisão irreversível, porque a fase do arrependimento costuma ser a fase em que o animal está menos definido. Existem exceções que não esperam: risco de mordida em pessoa da casa, ferimento entre animais, sofrimento intenso do animal e mudança de saúde na família.

O que um cão sente quando é doado?

Ele perde as referências que usava para prever o dia. Estudo com cães na entrada de um abrigo público mediu queda do cortisol plasmático entre o segundo e o nono dia de abrigo. Como a medição foi feita em abrigo, ela não determina o que acontece na sua casa, mas ajuda a entender por que o desconforto não passa da noite para o dia. Na prática, você vê um cão que se esconde, come pouco ou fica hipervigilante. É por isso que rotina previsível funciona melhor que carinho insistente: cada horário que se repete devolve um pedaço da capacidade de prever.

Onde o gato filhote deve dormir?

Em um cômodo só, com todos os recursos dentro e pelo menos um esconderijo. As diretrizes de necessidades ambientais felinas da AAFP e da ISFM colocam o espaço seguro como o primeiro dos cinco pilares de um ambiente saudável para gatos. Na prática, monte um quarto ou banheiro com cama, água, comida e caixa de areia em pontos separados, e acrescente uma caixa de papelão virada onde ele possa se recolher. Não o obrigue a dormir na cama que você comprou: gatos escolhem o lugar por segurança, não por conforto aparente. Depois amplie o território aos poucos.

Cachorro sofre quando muda de dono?

Sofre, e o desconforto se estende por dias, não por horas. Em cães acompanhados na chegada a um abrigo, o cortisol plasmático caiu entre o segundo e o nono dia, e o comportamento continua mudando por meses depois. O que reduz esse sofrimento não é compensação afetiva, é previsibilidade: horários fixos, um espaço de referência dele e menos novidade por dia. Objetos com o cheiro do ambiente anterior, quando existirem, ajudam. E vale a expectativa correta: um cão que se esconde na primeira semana não está infeliz para sempre.

Quais são as 3 primeiras vacinas para cachorro filhote?

O esquema inicial depende da idade e do histórico do filhote, e não é um número fixo de doses igual para todos. O que vale na chegada é fazer a primeira consulta logo, levando qualquer documento que tenha vindo junto, porque o calendário se monta a partir do que já foi aplicado. O cronograma completo por idade está no guia de vacinas de cachorro, e a versão felina em vacinas de gato.

O que é necessário para cuidar de um gato filhote?

Menos itens do que as listas de loja sugerem e mais atenção ao arranjo do ambiente: caixa de areia longe da comida, potes de água e comida separados entre si, um ponto de altura e ao menos um esconderijo. Telas de proteção em janelas e sacadas vêm antes de qualquer brinquedo. Deixe a aproximação partir dele e use brincadeira com varinha em vez da mão.

Como cuidar de cachorro filhote de 2 meses?

Aos dois meses o filhote está no período mais sensível da socialização, e é isso que organiza as prioridades: apresentar superfícies, sons, pessoas diferentes e cães adultos vacinados que você conhece, em ambiente controlado e sem chão de rua. Some refeições distribuídas ao longo do dia, bastante sono e treino curto com reforço positivo. O que evitar: punição física, passeio em rua movimentada antes da liberação e isolamento em nome da proteção sanitária.

Fontes e Referências

  • Bohland KR, Lilly ML, Herron ME, Arruda AG, O’Quin JM. Shelter dog behavior after adoption: Using the C-BARQ to track dog behavior changes through the first six months after adoption. PLoS One, 2023;18(8):e0289356. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371%2Fjournal.pone.0289356 | Consultado: prevalência de 76,9% aos 180 dias na subescala de agressão dirigida a estranhos, definição de presença como escore acima de zero e composição da subescala.
  • Hennessy MB, Voith VL, Mazzei SJ, Buttram J, Miller DD, Linden F. Behavior and cortisol levels of dogs in a public animal shelter. Applied Animal Behaviour Science, 2001;73(3):217-233. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11376839/ | Consultado: queda do cortisol plasmático entre o dia 2 e o dia 9 nos cães que permaneceram nove dias no abrigo; análise comportamental de 166 cães no dia 3.
  • Moyer BJ, Zulch H, Ventura BA, Burman O. A qualitative exploration of owner experiences following dog adoption. Animal Welfare, 2025;34:e9. Disponível em: https://doi.org/10.1017/awf.2025.4 | Consultado: percepção de período de ajuste entre 27 adotantes e relatos de arrependimento.
  • Ellis SLH, Rodan I, Carney HC, Heath S, Rochlitz I, Shearburn LD, Sundahl E, Westropp JL. AAFP and ISFM Feline Environmental Needs Guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2013;15(3):219-230. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23422366/ | Consultado: os cinco pilares do ambiente felino saudável.
  • American Veterinary Society of Animal Behavior. Position Statement on Puppy Socialization. Disponível em: https://avsab.org/wp-content/uploads/2018/03/Puppy_Socialization_Position_Statement_Download_-_10-3-14.pdf | Consultado: período sensível de socialização e balanço entre risco comportamental e risco infeccioso.
  • Salman MD, Hutchison J, Ruch-Gallie R, Kogan L, New JC, Kass PH, Scarlett JM. Behavioral Reasons for Relinquishment of Dogs and Cats to 12 Shelters. Journal of Applied Animal Welfare Science, 2000;3(2):93-106. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1207/S15327604JAWS0302_2 | Consultado: proporção de entregas a abrigo com ao menos um motivo comportamental.
  • Association of Shelter Veterinarians. Guidelines for Standards of Care in Animal Shelters, 2ª edição, 2022. Disponível em: https://jsmcah.org/index.php/jasv/article/download/42/20/182?inline=1 | Consultado: condições da primeira semana e risco de doença respiratória.
Foto de perfil da Dra. Camila Torres, veterinária e autora do Tutor Inteligente Pet
Website |  + posts

Veterinária e tutora do Bertão (labrador), Freud e Jung (gatos). Formação UNESP Botucatu, especialização FMVZ/USP. Escreve sobre o que ela mesma precisou aprender ao cuidar dos próprios pets.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *